A tradicional Ceia de Natal Solidária LGBT+ passa, a partir deste ano, a se chamar Natal da Família LGBT+, reafirmando de forma ainda mais explícita o sentido político, afetivo e comunitário que sempre marcou a iniciativa. O Natal da Família LGBT+ voltou a ocupar, neste fim de ano, espaços de acolhimento e convivência na Cidade Ocidental (GO) e na Catedral Anglicana de Brasília, reafirmando um compromisso histórico com a vida, o afeto e a dignidade da população LGBTQIA+.

As duas celebrações foram organizadas conjuntamente pelo Estruturação – Grupo LGBT de Brasília e pelo Centro Brasiliense de Defesa dos Direitos Humanos (CentroDH), em parceria com a Catedral Anglicana de Brasília. Na Cidade Ocidental, a realização do Natal da Família LGBT+ contou também com o apoio da Prefeitura da Cidade Ocidental, reforçando o papel do poder público local na promoção de ações de acolhimento, solidariedade e respeito à diversidade. As iniciativas contaram, ainda, com o apoio do Distrito Drag, da Sauna Soho, do Sindicato dos Professores e de doadoras e doadores individuais, que tornaram possível a realização dos encontros.
Mais do que uma refeição, o Natal da Família LGBT+ reafirma um gesto político e comunitário que atravessa décadas. Criada ainda nos anos 1990, a iniciativa surgiu como resposta direta à rejeição familiar que, historicamente, marca a trajetória de muitas pessoas LGBTQIA+. Em um período do ano socialmente associado à reunião familiar, parte significativa dessa população vivencia o isolamento, a ruptura de vínculos e a negação do afeto, muitas vezes como consequência da LGBTQIAfobia presente no ambiente doméstico.
Para Michel Platini, presidente do Estruturação e do CentroDH, a mudança do nome explicita o sentido profundo da ação. “Quando dizemos Natal da Família LGBT+, estamos afirmando que a nossa comunidade também constrói família. Essa ceia existe porque, durante muito tempo, disseram para pessoas LGBT que elas não pertenciam às suas próprias casas. Então nós criamos outra resposta: uma família que se abraça, que acolhe, que celebra a vida como ela é. O Natal solidário é sobre ninguém ficar para trás, é sobre dignidade, cuidado e pertencimento”, afirmou.
Diante dessa realidade, o Natal da Família LGBT+ se consolida como um espaço de reconstrução simbólica da ideia de família. Uma família escolhida, construída no cuidado mútuo, na escuta e no reconhecimento das trajetórias que resistem cotidianamente às violências estruturais. Ao reunir pessoas LGBTQIA+ em torno da mesa, a iniciativa afirma que ninguém deve atravessar o Natal sozinho e que o pertencimento também se constrói coletivamente.

As edições realizadas na Cidade Ocidental e na Catedral Anglicana de Brasília reafirmaram esse sentido. Voluntárias e voluntários, lideranças comunitárias, artistas e apoiadores se uniram para preparar e compartilhar a ceia, criando um ambiente de acolhimento, celebração e troca de afetos. A parceria com a Catedral Anglicana de Brasília e o apoio da Prefeitura da Cidade Ocidental evidenciam a importância da articulação entre sociedade civil, instituições religiosas e poder público na construção de políticas e práticas baseadas em direitos humanos, diversidade e inclusão.
A vice-presidenta das instituições, Fainy Mendes, destaca que a iniciativa também cumpre um papel fundamental de cuidado coletivo. “O Natal da Família LGBT+ é um gesto de amor, mas também de responsabilidade social. Ele mostra que a comunidade LGBT sabe cuidar de si, criar redes de proteção e transformar dor em afeto. Cada prato servido carrega uma história de resistência, de reconstrução de vínculos e de esperança”, ressaltou.
Para o Estruturação e o CentroDH, o Natal da Família LGBT+ integra uma agenda permanente de ações voltadas ao acolhimento, à promoção de direitos e ao enfrentamento das desigualdades que atingem a população LGBTQIA+. Ao longo de mais de três décadas, a iniciativa se mantém viva porque responde a uma demanda real e persistente: a necessidade de reconhecimento, pertencimento e celebração da vida em um contexto que ainda impõe exclusões.
Celebrar o Natal em comunidade, para pessoas LGBTQIA+, é também um ato de resistência. É afirmar que o afeto é um direito, que a família pode assumir múltiplas formas e que a dignidade não pode ser condicionada à negação de identidades, corpos e afetos. O Natal da Família LGBT+ segue, assim, como um gesto coletivo que transforma rejeição em abraço, solidão em encontro e exclusão em comunidade.
